Vou regressar, sem compromisso de frequência. Por hoje, com um texto de 2025 escrito no tele móvel durante uma viagem entre Lisboa e Paris.
E era uma vez um melro de rabo
alçado que foi apanhado por uma corrente de ar, e sem dar corda às duas asas,
viu-se pousado no parapeito de um camarote ao centro de um teatro vazio onde
apenas se ouvia o som de um violino, o qual no meio do nada tocava só silêncio.
A luz do imponderável, abateu-se
sob a sola do meu sapato esquerdo e soltou os dedos dos pés das amarras dos
atacadores, para segurarem um lápis de carvão fóssil e eu poder começar a
escrever uma carta, em francês, a língua internacionalista como dizia Piet
Mondrian, dirigida ao melro meu amigo com quem marquei encontro à porta do
teatro das ilusões, terminado o concerto de violino.
Na carta, perguntava ao melro qual
a corda preferida para a embalagem com uma dúzia de minhocas que comprei num
quiosque táctil junto ao xafariz que vende chá chinês para curar o pingo do
nariz.
Acabei por chegar atrasado, porque
houve uma avaria na caixa negra do A319 onde tinha reservado um assento na fila
17, e fiquei com as ideias adormecidas pela falta de luz interior, enquanto o
nariz do pássaro de alumínio temperado furava a cobertura de nuvens batidas em
castelo medieval.
Quando cheguei ao ponto de
encontro, esperei três minutos e como o melro não aparecia procurei na posta
restante do teatro, e ele tinha deixado de facto uma mensagem, em braile,
impressa numa folha de laranjeira, e recorri ao Google Traductor para perceber
que o meu Amigo não podia esperar porque ia a um leilão numa galeria de arte
comprar uma gravura de Picasso em tons de verde seco. Mas, eu devia aguardar
uns minutos até chegar a sua companheira, com o bico turquesa, que me guiaria
por um labirinto hexagonal até à fábrica de criação da abstração.
Quando cheguei ao destino final,
tínhamos à nossa espera uma mesa neoplástica com 17 copos de cristal com leite
em pó, preparado por borboletas arco-íris, que nos aconselhavam tomar de olhos
fechados, visto que fazia o mesmo efeito de uma aula sobre equilíbrio instável.
Antes da refeição, tivemos que responder a um questionário. Foi indispensável
confessar, que tinha nascido em 1943, que aprendi a ler escrever e somar, que
só pude estar dois anos a estudar arquitectura, que gosto de pintura abstrata,
que aprendi a escrever à máquina, que já vivi em quatro moradas distintas, que já
fiz um projeto para um museu orgânico, e por fim, que com a ajuda de uma panela
de papel com água e açúcar aquecida ao Sol, já atingi o ponto da Felicidade
Cartesiana.
Agora que, diz-me o meu relógio, já
uso mais tempo a pensar do que a fazer, interrogo-me sobre se Deus existe, e se
será português? É que, numa carta para um amigo escrevia Mondrian em Paris em
1933," Ne trouvez-vous pas terrible l'etat des choses en Allemagne? Mais
cet effort réactionnaire provoquera partout la force contraire : la vie
nouvelle se créera!"
O encontro com a melra com bico
turquesa ocorreu ao pôr do sol, quando o concerto de violino deu o último
acorde.


































W.jpg)






W.jpg)


W.jpg)
