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sábado, outubro 31, 2026

 

Vou regressar, sem compromisso de frequência. Por hoje, com um texto de 2025 escrito no tele móvel durante uma viagem entre Lisboa e Paris.



E era uma vez um melro de rabo alçado que foi apanhado por uma corrente de ar, e sem dar corda às duas asas, viu-se pousado no parapeito de um camarote ao centro de um teatro vazio onde apenas se ouvia o som de um violino, o qual no meio do nada tocava só silêncio.

A luz do imponderável, abateu-se sob a sola do meu sapato esquerdo e soltou os dedos dos pés das amarras dos atacadores, para segurarem um lápis de carvão fóssil e eu poder começar a escrever uma carta, em francês, a língua internacionalista como dizia Piet Mondrian, dirigida ao melro meu amigo com quem marquei encontro à porta do teatro das ilusões, terminado o concerto de violino. 

Na carta, perguntava ao melro qual a corda preferida para a embalagem com uma dúzia de minhocas que comprei num quiosque táctil junto ao xafariz que vende chá chinês para curar o pingo do nariz. 

Acabei por chegar atrasado, porque houve uma avaria na caixa negra do A319 onde tinha reservado um assento na fila 17, e fiquei com as ideias adormecidas pela falta de luz interior, enquanto o nariz do pássaro de alumínio temperado furava a cobertura de nuvens batidas em castelo medieval. 

Quando cheguei ao ponto de encontro, esperei três minutos e como o melro não aparecia procurei na posta restante do teatro, e ele tinha deixado de facto uma mensagem, em braile, impressa numa folha de laranjeira, e recorri ao Google Traductor para perceber que o meu Amigo não podia esperar porque ia a um leilão numa galeria de arte comprar uma gravura de Picasso em tons de verde seco. Mas, eu devia aguardar uns minutos até chegar a sua companheira, com o bico turquesa, que me guiaria por um labirinto hexagonal até à fábrica de criação da abstração. 

Quando cheguei ao destino final, tínhamos à nossa espera uma mesa neoplástica com 17 copos de cristal com leite em pó, preparado por borboletas arco-íris, que nos aconselhavam tomar de olhos fechados, visto que fazia o mesmo efeito de uma aula sobre equilíbrio instável. Antes da refeição, tivemos que responder a um questionário. Foi indispensável confessar, que tinha nascido em 1943, que aprendi a ler escrever e somar, que só pude estar dois anos a estudar arquitectura, que gosto de pintura abstrata, que aprendi a escrever à máquina, que já vivi em quatro moradas distintas, que já fiz um projeto para um museu orgânico, e por fim, que com a ajuda de uma panela de papel com água e açúcar aquecida ao Sol, já atingi o ponto da Felicidade Cartesiana. 

Agora que, diz-me o meu relógio, já uso mais tempo a pensar do que a fazer, interrogo-me sobre se Deus existe, e se será português? É que, numa carta para um amigo escrevia Mondrian em Paris em 1933," Ne trouvez-vous pas terrible l'etat des choses en Allemagne? Mais cet effort réactionnaire provoquera partout la force contraire : la vie nouvelle se créera!" 

O encontro com a melra com bico turquesa ocorreu ao pôr do sol, quando o concerto de violino deu o último acorde. 


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