Voltamos hoje à exposição incómoda para um conhecedor dos IV
e III milénios no território hoje delimitado como Portugal.
A Europa dos finais do Neolítico claro que não tinha
fronteiras, e muito menos sequer comunidades separadas por linhas próximas das
administrativas que hoje conhecemos e por isso os index definem-se através dos
grandes espaços mais comuns, como é o caso da Ibéria.
Ignoremos o conceito de “corpo humano” proposto no folheto
entregue à entrada, e antes de me centrar nas particularidades das
representações atribuídas à Peninsula Ibérica na exposição e no catálogo,
abordarei o título principal – Idoli, ou Ídolos – porque ele corresponde à
“pregunta de um milhão de dólares”.
Ao atribuir-se um Título a um artefacto ideotécnico, fica
nele encerrada, e confessada, a impossibilidade de fazermos uma interpretação
do caminho ideológico percorrido desde a elaboração de cada representação,
despida dos conceitos actuais, e o convencimento de que os seus criadores os
consideravam poderem ser objecto de inclusão num ambiente pretensamente
protegido de futuras violações, e por isso eterno, e esta “eternidade”
remete-nos para uma reflexão sobre os papeis desempenhados pelas alterações
ocorridas até hoje em cada monumento funerário. Monumento funerário, porque a
morada dos mortos na antiguidade era precedida de um longo e elaborado processo
construtivo, que para além do objecto de lugar de culto ambicionava figurar na
paisagem como um marcador eterno.
Numa ou mais fases, as primeiras violações de um monumento
funerário ou foram verdadeiros saques prepretados por ocupantes territoriais,
ou assentaram em princípios e metedologias formais de investigação
arqueológica, na certeza porém de que escavar é sempre destruir contextos,
embora aliviando a consciência com a inexistência de milages conducentes à
intrepretação fidedigna àcerca de como se processaram e enquadraram os ritos em
todas as etapas de imolação.
Os mobiliários funerários que chegaram até nós in sitú, podem
gerar exercícios de aproximação progressiva a uma intrepretação próxima da
verdade do seu contexto, sempre com a contaminação das vivências e dos
conhecimentos do Homem actual, e por isso a relação entre um “objecto” e os
restos de uma inumação lado a lado tendem para a atribuição sobrenatural dessa
deposição intencional, e o Ídolo acaba por nascer como uma entidade, e
identidade insolúvel, muito fortalecida nas representações mais esquemáticas.
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